O promotor de Justiça Eugênio Paes Amorim afirmou, ao término do quarto dia do júri do Caso Gabriel Cavalheiro, que o Ministério Público pretende demonstrar aos jurados, durante os debates desta sexta-feira (3), que as versões apresentadas pelos três policiais militares acusados são falsas e contradizem as provas reunidas ao longo da investigação e da instrução processual.
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Segundo o promotor, a fase final do julgamento será marcada pelo confronto entre as provas produzidas e as teses sustentadas pela defesa.
— Amanhã nós pretendemos demonstrar aquilo que já foi deixado bem claro na instrução. Será um debate, o que é muito comum no Tribunal do Júri, da verdade contra a mentira. As teses defensivas e as palavras dos réus são absolutamente falsas e mentirosas, seguindo a linha de covardia com a qual eles se comportaram ao matar o menino. Foram covardes ao matar o menino e continuam covardes por não terem a hombridade de assumir a autoria.
Questionado sobre os depoimentos prestados nesta quinta-feira, especialmente em relação ao sistema de geolocalização (GPS) da viatura, Amorim rebateu a alegação da defesa de que haveria imprecisão suficiente para afastar a localização indicada pela acusação.
— O ponto final do GPS está demonstrado. É aquele. Se eu pegar o meu celular agora e abrir a localização, vai dar uma imprecisão de 14 metros. Eles aumentaram essa distância muito além do que foi verificado no local. E também precisam explicar por que fizeram uma volta mais adiante e retornaram para deixar o menino mais próximo do mata-burro. Se era para voltar, por que não retornaram até o colégio?
Ainda sobre esse aspecto, o promotor ironizou a tese apresentada pelos réus de que Gabriel teria passado pelo mata-burro.
— Quem esteve lá hoje viu que aquele mata-burro mata elefante, hipopótamo e rinoceronte. Não passa nada pelo espaço existente entre as grades. Só se o menino tivesse um pé enorme.
Outro ponto abordado durante a entrevista foi a ocultação do cadáver. A defesa sustenta que o tempo disponível entre a abordagem e o desaparecimento não seria suficiente para que os policiais colocassem o corpo no açude onde Gabriel foi encontrado.
Sobre isso, Amorim afirmou que essa não é a tese defendida pelo Ministério Público.
— Nós estamos dizendo que eles mataram e deixaram o corpo à beira da estrada. Quem colocou o corpo no açude, vocês saberão aproximadamente amanhã. O que eu posso dizer é que nós temos uma página vergonhosa para alguns militares da corporação de São Gabriel, e isso ficará muito claro.
O julgamento entra nesta sexta-feira em sua fase decisiva, quando acusação e defesa apresentarão os debates finais antes de o Conselho de Sentença decidir pela condenação ou absolvição dos três réus.
Relembre o caso
Gabriel Cavalheiro havia se mudado de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, para São Gabriel com o objetivo de cumprir o serviço militar obrigatório no Exército.
Na noite de 12 de agosto de 2022, enquanto estava hospedado na casa de um tio, no Bairro Divina Providência, saiu para tomar uma cerveja. Pouco depois, uma moradora acionou a Brigada Militar informando que um homem desconhecido tentava abrir o portão de sua residência.
Os três policiais militares denunciados atenderam a ocorrência, imobilizaram Gabriel e o colocaram no compartimento de transporte da viatura. Imagens gravadas por testemunhas e elementos reunidos na investigação indicam que ele também sofreu golpes de cassetete durante a abordagem. Aquela foi a última vez em que o jovem foi visto com vida.
O corpo de Gabriel foi encontrado no dia 19 de agosto de 2022, submerso em um açude na região conhecida como Lava Pé, na zona rural de São Gabriel. O Ministério Público acusa os três policiais militares de homicídio qualificado, ocultação de cadáver e fraude processual.